A Student’s View (in Portugese)

Posted by Martin Keogh

A visão dos estudantes sobre Contato e Improvisação

por Martin Keogh

(tradução: Isabela Carpena)

 

Uma vez por ano, a Universidade Stanford oferece um curso chamado Dança Herança: Historia e Estilos.  Um instrutor visitante é convidado a ensinar uma forma que tenha tido impacto na historia da dança. Ao longo dos anos esses cursos incluíram os estilos de Merce Cunningham, Martha Graham, e Isadora Duncan.

 

Quando o departamento se aproximou de mim para que ensinasse, disseram que estavam finalmente entrando no século XX e gostariam de um curso em Contato e Improvisação. Alguns dos instrutores do departamento de dança estavam fazendo lobby para ter essas aulas, e por que estávamos celebrando o vigésimo aniversário da concepção da forma, eles consideram esta qualificada para o componente ‘Herança’ desse curso em particular.

 

Até aquele momento eu estava acostumado com estudantes que estavam de alguma forma familiarizados com a forma – tinham visto uma performance, ou tinham dançado com amigos, ou tinham feito algumas aulas. Quando eu entrei no estúdio de dança Roble na Stanford, com uma classe de 23 estudantes, somente cinco tinham ouvido falar da forma e só três desses já a tinham visto. Por causa disso ensinei uma série que não seguia o meu estilo e formato usuais. Eu mantive os estudantes fora de qualquer contato físico continuo por nove aulas. Foi como preliminares estendidas. Quando começaram a trabalhar em duetos, já tinham constituído um forte desejo pela dança. Quando nós começamos a dançar, era tudo o que eles queriam fazer em cada um dos encontros de tarde.

 

Na Stanford, os estudantes recebem um crédito para aulas de dança, exceto nas séries de Dança Herança, onde eles ganham três créditos. Pelos créditos extras é esperado destes que realizem um componente de leitura e de escrita do curso. Para essa série era demandado um diário. A crítica de dança Janice Ross, que ensinou o conteúdo histórico do curso, escreveu a seguinte descrição para a classe:

O diário é um repositório de seus pensamentos e respostas ao Contato e Improvisação, um artifício para a sua relação em andamento com esse material. Esteja consciente de como essas ideias são afetadas pelas aulas, leituras, discussões. O diário é também algo do avesso: registra como a vida se imprime em sua compreensão desse projeto através de outras performances, eventos de arte, vida cotidiana. Sinta-se livre para desenvolver o formato de escrita que lhe convier. Seja honesto. Tenha séria1 diversão. O diário completo constituirá o seu exame escrito final para a classe.

 

Foi um prazer e uma honra ensinar a esse grupo de alunos articulados e receptivos. Abaixo estão excertos de seus diários, escolhidos pela sua visão clara, seu insight, e alguns por sua poesia.

 

Excertos dos Diários:

  • “Comunique-se/reconheça-se com o chão.” O.K. Essa é uma experiência nova para mim. Eu realmente preciso trabalhar para romper com o modo ballet. Isso é realmente estranho. É tão diferente de tudo que eu já fiz antes. Eu espero que tudo vá bem e que eu não desista2. Eu realmente quero expandir minha gama de dança. Então, lá vamos nós!
  • Como que eu posso dançar quando meu país (Índia) está sendo despedaçado3? Ele é um corpo vivo nu, com os pé atados, a genitália rasgando lentamente. Eu queimo, estou sofrendo, sou Sadista, e Masoquista em uma. Distúrbios, Queimações, Meus Pais, Amigos No Meio, Meu Ser sendo rasgado enquanto se alonga pela sala.
  • Batimento, rítmico, sinais, signos, correntes, dentro de fogos queimando, sob controle. Lembre se que isso é só um aquecimento, mas fogos irão queimar uma vez que fogos são querer fazer. Eles crescem mais altos e mais altos e mais altos – até que eu tenho que me separar de todo mundo por receio de queimar o mundo.
  • Eu senti um tipo de consciência que acho que nunca experimentei antes. Não é nem um pouco cerebral – é muito mais inteiramente acordado. É um ofuscamento e uma intensa consciência ao mesmo tempo.
  • Eu acho extremamente difícil, até irritante, soltar/relaxar a cabeça– tanto porque é tão difícil e novo para mim, mas também porque eu passei muito tempo aprendendo como proteger a minha cabeça de golpes dos outros.
  • Eu realmente gosto dos momentos nas danças quando as minha expectativas são falidas: onde eu espero ir “whooosh” e em troca vou “clunk”; eu não tenho certeza do por que esses momentos são tão atraentes para mim, mas eles realmente são.
  • Eu passei uma boa parte desse fim de semana vagando pela costa. Brincando de contato com o oceano, fazendo a pequena dança em cima de um costão contra uma forte, mas as vezes quixótica, maresia. Depois, esvaziando meu peso e desejo no mar- flutuando sozinha, sem direcionamento de ninguém.
  • Eu estou particularmente interessado nas superfícies que somos instigados a encontrar. Osso, músculo, planos – eu estou construindo um tipo de imagem de mapa-geográfico-sensível-a-calor das formas criadas pelo corpo em movimento. Um braço é basicamente estreito e como um pau, mas no momento certo, com uma pessoa espiralando sobre ele -seu suporte pode ser como um extenso campo.
  • Eu estava segurando uma pessoa do meu tamanho nas minha mãos! Como uma mulher, eu acho essa nova força encontrada muito empolgante. Eu tenho um forte histórico de dança em ballet e fiz muitos trabalhos avançados com parceiros, então, estou habituada a ser levantada. Eu ainda gosto, ou melhor, amo, pular, dar pirueta, mas agora eu percebo que eu posso devolver esse favor.
  • Eu não vou mais fazer dessa aula uma psicoterapia ou nada disso, mas eu vim para o estúdio em um humor ruim – me sentindo mal fisicamente + estava realmente estarrecido – depressivo. Sai da aula FELIZ, não de uma forma frívola, mas quieta + profundamente.
  • Foi interessante o quanto “fazível” parte desse trabalho  é. No levantamento onde uma pessoa salta por sobre o ombro do outro, meu parceiro e eu gastamos tipo três minutos só tendo medo. Depois finalmente nós tentamos e foi um alívio enorme. Foi não só razoável fazer, mas divertido.
  • O Martin colocou na minha dança a seguinte imagem: “Um céu de uma noite sem lua na serra a 10.000 pés.” É uma noite fria. Eu já passei muitas horas deitada no meu saco de dormir observando o céu de estrelas, o ar frio batendo no meu rosto, as vezes uma brisa gentil que acaricia lentamente as árvores, ou as cordilheiras de rígidos penhascos. Há uma sensação de paz, misturada com um sentimento de tensão, como se alguma coisa fosse acontecer. Talvez um meteorito, ou um satélite se movendo silenciosamente por entre as constelações. As estrelas sozinhas parecem tão brilhantes e claras. É isso que eu penso da imagem.
  • Meu joelho não está feliz & meu corpo não está contente e eles me dizem que eu não posso dançar – eles mentem, mentiras que eu vou dançar que eu posso mandar minha alma para fora desse monte de mentiras partidas & tudo o que minha alma faz é dançar.
  • Eu ainda curto ficar entalada – eu faço um ponto disso. Quando a gente fica entalado/preso, eu falo pro meu parceiro, Hei! Nós estamos entalados/presos! A maioria não parece curtir isso. Ah bem- eu e minhas travessuras perversas.
  • No meu caminho de volta para o estúdio para o lec-dem, eu tive o acidente de bicicleta mais incrível. Eu estava carregando uma bebida em uma das mãos + tentando me situar, + eu perdi meu equilíbrio + cai da calçada em um grande bueiro. Eu fui voando por sobre meu guidom, realmente senti como se estivesse voando, + eu aterrizei na grama, meus ossos eram salsichas de tofu, + não doeu (não muito, só o suficiente para eu saber que estou vivo) + eu nem derramei minha bebida. Foi extasiante: então agora eu quero voar. Esse é o meu objetivo no contato agora.
  • Riscos alturas queda colidindo impactando deslizando palpitando é tão maravilhoso ser jovem e invencível – ser completado com o poder da música & sentimento – em respeito ao meu sonho –  em respeito à gravidade.
  • Eu estou com um resfriado prolongado e fiquei acordado até 4 da manhã escrevendo um trabalho, mas a aula de contato funcionou como magia e me ajudou a voltar à terra dos vivos.
  • Batida acadêmica4. Erro no sistema. Cérebro-como-papinha Amassa eu vou para a biblioteca de arte para relaxar cérebro
  • Por causa do meu nível de stress generalizado eu pareço estar tendo maior facilidade com as coisas mais “grosseiramente”5 expressivas e maior dificuldade com as coisas mais sutis.
  • … houve momentos no centro do orgasmo da dança, em que a mágoa foi esquecida, a alegria envelopa a mágoa, e coloca num correio para algum lugar bem longe. Eu apreciei a dança, ela se uniu a mim, ela se tornou parte da forma como eu movo. Ela se tornou parte da forma como eu escrevo, até! Se eu fui insensível6, não cuidadoso, inconsciente do tempo, demais um “estudante de Stanford”, eu peço desculpas, eu sei que eu fui, eu lutei contra isso, algumas vezes venci, frequentemente perdi.
  • “Acabou.”

terminado___________acabou
poder_______________ela já te superou
ciclo________________de novo, de novo e de novo
deixe ir______________supere isso

  • Inseguro7. Eu fiquei muito pesado. Dar peso? Eles vão notar! Porém, a pressão deles molda minha carne. Prazer na confiança. Surpresa! Eles aguentam. Tamanho. Peso.  . cor. sexo. cheiro. Derretendo mais rápido.
  • Você confia em mim pois mesmo eu sendo pequeno e leve eu não vou deixar você cair – não sozinho (pelo menos)
  • Você, leitor projetado, tem algumas palavras que, se separam das coisas que elas significam, simplesmente rangem no seu ouvido, SOAM como uma ofensa à língua humana?? Uma dessas palavras para mim é LUXURIAR. O conceito, tudo bem, ótimo, necessário, mas Deus, o som da palavra me incomoda. Duas palavras que me atraem, ao contrário de luxuriar, são “abafado” e “manga”8.
  • Medo do toque mulher-homem me levou a procurar um toque mulher-mulher. Até o “amassamento” foi um choque. Eu espiralei para dentro de mim. Depois um padrão de medo antes, e elevação depois. Vislumbre.
  • O exercício avançado de passos – pisando sobre a outra pessoa em moção contínua- levemente introduzindo peso para que o peso esteja movendo horizontalmente ao invés de descer. Depois uma revelação: ferventemente, irritadamente comecei a lançar-me de um indivíduo para outro, pisando em todos eles. De repente, todo mundo começou a correr e trocar entre estar propenso e pisado + a cena ebuliu em pandemônio espontâneo.
  • Havia muita energia perversa no estúdio. Nós éramos todos criaturinhas correndo em volta de alguma floresta densa e mágica pisando uns nos outros. Essa divertida malícia foi infecciosa. Aquele correr, a esquisitice e agressão cresceram coletivamente. Nós estávamos todos só correndo e correndo e pisando em qualquer obstáculo no nosso caminho – formando nosso caminho para deslizar sobre os obstáculos do corpo.
  •  O presente da resistência – As dinâmicas que se fizeram possíveis pelo oferecer resistência ao peso ou energia de outra pessoa (em oposição ao dar suporte). Momentos em que ação ou imobilidade equilibrada crescem das duas forças se contrapondo uma a outra para criar uma terceira direção são especialmente entusiasmantes fisicamente e significativos para mim metaforicamente.
  •  O prazer do toque entre pessoas, quando nós normalmente só podemos tocar de formas altamente formalizadas. Estar apto a deslizar e arrastar-se e andar e balançar, pele a pele, peso a peso: um prazer visceral, não-amável. Quando eu saio do estúdio, meu toque relaxado é limitado àqueles de quem sou particularmente próximo, mas dentro, esse toque está em todo lugar entre quase estranhos assim como entre amigos mais próximos. Aprendendo sobre a personalidade deles a partir de como eles usam seu toque na dança. E fora do estúdio, com aqueles que eu conheço do contato eu me sinto muito mais confortável, sentindo que nós nos conhecemos nessas formas viscerais inomináveis.
  • Nós estávamos fazendo contato antes mesmo de eu perceber que eu tinha aprendido o suficiente para fazê-lo. Parece que a classe é dividida bruscamente pela metade em termos de com quem eu mais aprecio dançar + e quem eu prefiro evitar – muito poucas pessoas caem em um meio termo indiferente, mas eu acho que é assim que é quando você trabalha tão pessoalmente com pessoas.
  • Há algumas pessoas que com quem eu gosto mais de dançar do que outras. Alguns eu sinto são mais afinados para explorar junto, para descobrir o que é novo em cada parceria. Outros parecem para mim se apegar a sua própria pesquisa, uma postura de mais demanda, mais via de mão única, menos mão dupla. Eu me importo menos com parceiros que agarram, que pegam meus membros e empurram para um lado ou outro, vai aqui, vai ali, faça isso, faça aquilo. Eu posso ver as suas intenções em fazer essa dança funcionar; mas eu quero que funcione para nós dois, que funcione em nós dois, que funcione para fora de nós dois.
  • Culpe seu parceiro -sim- isso é fácil de ser feito, e eu sou culpado por isso. Toma muita energia e pesquisa trabalhar com uma pessoa que eu sinto não estar presente.
  • Eu odiei o aquecimento, fazer toda aquela balbuciação. Eu não me sinto muito confortável em usar minha voz como uma forma de expressão improvisada.
  • Eu extrai sangue nos meus pés pela primeira vez. Nada demais, exceto que eu finalmente me sinto livre do meu treinamento de ballet. Essa é a minha primeira aula descalço, então, de uma forma boba é simbólico para mim.
  • Como pode o líder [num exercício de líder/seguidor] perceber a diferença entre resistência ativa/inconsciente e limites físicos da anatomia? Quando deve a resistência ser induzida a se retirar, quando a resistência é um limite absolutamente físico (ex: joelhos somente dobram para um lado), quando a resistência é uma proteção natural/inconsciente ?
  • Essa dança é super legal!
  • Contato fez mais para informar minha dança do que qualquer outra experiência em dança que eu já tive. Há uma lógica corporal para contato, a lógica corporal que meu corpo já sabia mas estava esperando para ouvir sobre de fora. Os princípios de movimento que aprendi no contato se tornaram simplesmente penetrantes no meu movimento, e no produzir material eu me vejo fortemente pressionado a voltar me a outros vocabulários de movimento – meu corpo estava me trazendo de volta o tempo e de novo àqueles do contato.
  • Eu nunca me senti tão confortável com outro corpo antes.
  • Amanhã & amanhã & amanhã é somente um outro dia para sofrimento & alegria & dor & vergonha mas hoje hoje é o aniversário do sol e todos os dias também contanto que sejam hoje hoje eu levantarei meu pé para o céu hoje eu cairei para o chão & hoje eu farei meu próprio sonho com o tesouro submerso do meu próprio corpo isso & aquilo eu levantarei levantarei levantarei para fora do preguiçoso nada9 e encontrar os cantos que amedrontam até amantes

Meu coração é como
um milhão de guindastes
voando….
cada vez que  eu faço
um carrinho10

1   . ‘Séria’ aqui tem o sentido de real, verdadeira.

2   . No original, é usado o termo chicken out, que é “amarelar”, ser galinha, na tradução literal.

3   . Expressão original: torn to shreds

4   No original: academic crash, sendo crash a palavra referida para acidente, batida, destruição.

5   Aspas do tradutor, no original: blatantly

6   No original: insensible, insentive, que em português tem a mesma palavra.

7   No original: self-conscious, que é baixa alta estima.

8   No original: “sultry” and “mango”.

9   No original: “lazy nothingness”, o que seria uma qualidade de nada.

10   Carrinho como a jogada de futebol