101 Maneiras de Dizer Não no Contato Improvisação: Limites e Confiança

Posted by Martin Keogh

por Martin Keogh,

do livro “A Arte da Espera – ensaios sobre Contato Improvisação”

(tradução: Arthur Max)

…é importante que as pessoas despertas estejam despertas,

 

ou a linha rompida pode levá-las de volta ao sono;

 

os sinais que damos – sim, não ou talvez –

 

devem ser claros: a escuridão ao nosso redor é profunda.

 

– William Stafford

O Contato Improvisação é uma dança que convida todo o corpo e todo o ser a estar presente e disponível. Nesta forma de dança, precisamos construir a capacidade de confiar em nós mesmos e em nossos parceiros. Tal confiança é nutrida ou enfraquecida de acordo com nossa habilidade em determinar e respeitar limites.

Este ainda é um processo em andamento para mim, mesmo após mais de duas décadas de dança. Em diferentes momentos ao longo do caminho, deparei-me com muitas perguntas. Como avisar que você ainda não está aquecido e não está pronto para dançar, ou que você quer terminar uma dança? Como determinar limites se você tem uma limitação física ou se está machucado, ou se está dançando com um parceiro insensível? O que fazer se seu companheiro ou companheira está dançando de formar sensual com outra pessoa, e você está se sentindo ameaçado? Como interceder quando um grupo de músicos está se divertindo, olhando uns para os outros, mas parece ter esquecido a presença dos dançarinos para quem estão tocando? Como comunicar a um dueto que sua catarse forte e emotiva está transbordando e atrapalhando as outras danças na sala? Como negociar e comunicar esses limites?

Um aluno meu chegou a um workshop com um eczema por todo o corpo. Quando eu disse: “Encontrem um parceiro”, todos fugiram de onde ele estava, então terminei eu mesmo trabalhando com ele. Eu estava temeroso de que pudesse ser contagioso, então perguntei a ele diretamente: “Isso é contagioso?” Ele me disse que tinha uma reação alérgica chamada mastocitose, que libera enorme quantidade de histamina, provocando descoloração da pele. Ele me contou sua longa batalha contra isso, e que definitivamente não era transmissível. Eu me tranquilizei e, como eu esperava que acontecesse, a turma ficara com os ouvidos ligados na conversa. Depois disso, ele não teve problemas para encontrar parceiros.

Um amigo meu, também parceiro de dança, foi ao Philadelphia Contact Festival, onde eu estava lecionando e me apresentando. Estávamos ansiosos para dançar juntos, e finalmente tivemos uma oportunidade na jam de encerramento. Enquanto dançávamos, várias pessoas aproximavam-se para se juntar à dança. Algumas vezes conseguimos comunicar fisicamente que ainda não tínhamos terminado. Mas para uma das pessoas que tentou se juntar a nós, eu disse: “Nós marcamos esse dueto há seis semanas, e precisamos de mais algum tempo juntos.” Conversei com a pessoa mais tarde, e ela disse que meu “não” havia sido comunicado de forma clara e elegante.

Aprendi que há momentos em que o grupo como um todo se junta para dar limites a um indivíduo. Em meados dos anos 80, muitas mulheres que dançavam na jam semanal de Contato em Berkeley, Califórnia, reclamavam de um homem que vinha dançar regularmente. Vou chamá-lo aqui de Roland. Elas diziam que dançar com ele era desagradável devido a sua falta de limites. Era difícil para elas descrever o comportamento que não as agradava. Elas diziam ser uma “sensação”.

Uma delas disse: “Dançar com Roland é como dançar com cachorrinho entusiasmado, daqueles que tentam transar com a sua canela.” O sentimento geral era de que ele estava tentando “se satisfazer” na dança, roubando de suas parceiras algo que não estava sendo oferecido.

Não era difícil notar que, quase todas as vezes que uma mulher jovem chegava à jam pela primeira vez, onde quer que ele estivesse na sala, sua cabeça se virava. Em poucos minutos ele estava ao lado dela, oferecendo-se para lhe revelar os segredos do Contato Improvisação. Muitas dessas mulheres nunca mais eram vistas novamente na jam.

Embora muitas mulheres conversassem sobre Roland, a maioria delas não havia dito nada a ele diretamente. Era confuso para elas ter essa sensação tão desagradável a respeito daquele homem, e mesmo assim ter tão pouco de concreto a dizer sobre ele. Eu me lembro de uma mulher dizer: “Falar com ele seria como reclamar do mau tempo. Simplesmente não melhoraria nada.” Roland frequentava regularmente a Northern California Contact Jam, uma jam de cinco dias em Harbin Hot Springs. Foi Sue Stuart, uma das organizadoras desta jam, quem me ensinou uma lição sobre comunicar limites. Eu estava presente certa noite quando duas mulheres procuraram Sue para se queixar de Roland. Queriam que ela fizesse algo a respeito.

Sue perguntou: “Vocês já disseram algo a Roland?” Elas responderam que não. Então Sue perguntou: “O que vocês gostariam de dizer a ele?” Ambas expressaram o que gostariam de dizer. Uma falou: “Sinto que você está se satisfazendo sexualmente ao dançar comigo, e eu não quero dançar com você nem quero que você se aproxime de mim enquanto não souber controlar seus desejos sexuais.” Após verbalizar isso, ela foi capaz de se aproximar de Roland e conversar com ele. A outra mulher achou que não seria capaz de confrontá-lo, até que Sue ofereceu-se para acompanhá-la e ficar ao seu lado.

Fiquei impressionado com a resposta de Sue. Ela deu a essa mulheres os meios para cuidarem da situação por conta própria, em vez de deixar que passassem o poder a ela, à pessoa em posição de autoridade. Roland pediu desculpas e disse que tentaria mudar seu comportamento.

Alguns meses depois, estava claro que Roland havia mudado seu modo de dançar com as mulheres que faziam parte do grupo. Mas seu radar ainda piscava quando mulheres novas chegavam à jam semanal. Alguns dos homens que notaram isso, inclusive eu, se aproximaram dele e lhe disseram, com bom humor, o que haviam percebido. Dissemos que achávamos que ele estava prejudicando o grupo e que precisava mudar sua conduta ou deixar de vir às jams. Mesmo tendo nos aproximado dele com leveza, ele entendeu a gravidade da situação, pois muitos de nós haviam feito a mesma observação. Roland de fato mudou e hoje, mais de uma década depois, ainda dança regularmente e é bem aceito pelo grupo.

Neste caso, tudo funcionou bem tanto para Roland como para o grupo. No entanto, já soube de situações similares, envolvendo tanto homens quanto mulheres, que não correram tão bem. Por fim, pediram aos indivíduos envolvidos que não retornassem.

A partir da minha indagação a respeito do que é necessário para se estabelecer limites claros, desenvolvi um workshop chamado “101 Maneiras de Dizer Não no Contato Improvisação”. A premissa do workshop é de que, se uma pessoa não tiver confiança e habilidade para dizer não a algo, ela também não terá a capacidade de dizer sim inteiramente. Neste workshop, trabalhamos as habilidades físicas e verbais para dizer não a danças, ao toque, a ser levantado, à troca de peso, ao momentum, à manipulação.

Por exemplo, quando alguém me segura para me levantar, eu posso soltar meu peso e mover meu centro para longe do centro do meu parceiro. Assim, eu me torno pesado demais para ser levantado. Eu disse não claramente. Sabendo como dizer não, eu posso extrapolar para o lado oposto. Quando eu quero dizer sim e aproveitar a chance de voar, eu já sei como me tornar mais leve, levantando meu centro e organizando-o sobre o centro do meu parceiro.

É a mesma coisa em relação ao toque. Eu preciso de autoconfiança e habilidade (física ou verbal) para afastar a mão de alguém quando não quero contato físico ou manipulação. Tendo confiança na minha habilidade para determinar o limite, posso também escolher o oposto e me abrir ao toque.

No livro A Little Book on the Human Shadow, Robert Bly cria a metáfora de uma porta que temos para a nossa psique. Quando somos crianças, a maçaneta está do lado de fora, e as pessoas entram e saem a vontade. Conforme amadurecemos, aprendemos a transferir a maçaneta para o lado de dentro, e a escolher quando e para quem abrir e fechar a porta. Sabendo que podemos fechar a porta, somos mais livres para abri-la e convidar pessoas a entrar.

Para algumas pessoas que procuram essa forma de dança, é um desafio sentir e se conectar às sensações do próprio corpo.

Isso pode ser devido ao fato de pessoas terem forçado a entrada pela porta mais cedo na vida. Estes, cujos limites foram rompidos na infância, podem ter criado um escudo ou uma armadura protetora que os impede de fazer contato total com seus corpos e com o mundo. Aqui, torna-se especialmente importante para elas desenvolver as habilidades necessárias para determinar limites – e saber que têm a maçaneta do lado de dentro. Com a habilidade de expressar limites, elas podem começar a soltar as camadas de proteção e a permitir mais possibilidades em suas danças  – e, mais ainda, em suas vidas.

No Contato Improvisação há o princípio básico de que cada pessoa é responsável por si mesma. Eu sou a única pessoa que pode estar dentro do meu corpo, então preciso manter parte de mim desperta – a parte capaz de sentir e comunicar (física ou verbalmente) minhas necessidades, limites e desejos. Preciso garantir minha segurança e garantir que eu não prejudique outras pessoas. Aderir à prática deste princípio é uma forma de passar a maçaneta para o lado de dentro.

Durante o workshop “101 Maneiras…”, ensino também uma técnica de segurança que serve para se comunicar rapidamente em situações de alta energia. Aprendemos a gritar palavras curtas que requerem atenção imediata: “Pare!”, “Recue!”, ” Espere!” (Não uso mais a palavra “Não”, pois ela é cheia de nuances e, como qualquer um que tenha filhos sabe, propensa a ser testada). Também praticamos exclamações que especificam uma parte do corpo que está doendo ou prestes a doer: “Joelho!”, “Tornozelo!”, “Pescoço!”. É raro usar esta técnica, mas conhecer este recurso dá segurança à psique e nos permite abrir a porta para danças mais atléticas, acrobáticas e desorientadoras.

Ao desenvolver material para o workshop, eu procurava um exercício que demonstrasse claramente que a habilidade para dizer não criaria uma maior capacidade de dizer sim. Desta investigação surgiu um exercício chamado “Dois Rios”.

Eu não apresento este exercício até o grupo já ter uma história trabalhando junto. Uma pessoa, o recebedor, deita-se de costas. Outras duas, os “dois rios”, acariciam o recebedor, que os comanda por sinais feitos com os braços. Quando o recebedor cruza os braços sobre o torso, isso significa: “Não me toquem”. Repousar os braços no chão, ao lado do corpo, significa: “Toquem-me gentilmente, como se estivéssemos em um local público”. Colocar os braços no chão, sob a cabeça, significa: “Podem me tocar onde quiserem, em toda parte, sem restrições”. O recebedor pode mudar a posição dos braços a qualquer momento.

O toque pode ser relaxante, estimulante, sensual ou sexual, mas o recebedor está sempre controlando o que está recebendo. O recebedor abre e fecha as comportas dos rios. Os dois rios são instruídos a tocar o recebedor sempre respeitando seu nível de conforto.

Neste exercício, fica claro para os participantes que, se não houvesse a opção do “Não, não me toque em parte alguma”, não seria possível oferecer um sim completo, para tocarem em qualquer parte. Estando o limite disponível e visível, as pessoas estão mais aptas a pedir por mais do que se não houvesse limites. Com todo o consenso invisível existente nesta forma de dança, praticar um consenso explícito permite mais conforto nos acordos tácitos que fazemos a cada momento enquanto dançamos.

Após o workshop que incluía o exercício dos Dois Rios, um aluno me enviou por email essa citação de William Blake:

“Não sabemos quanto é o bastante se não soubermos quanto é mais que o bastante. A luxúria do bode é a glória de Deus. O caminho do excesso conduz ao palácio da sabedoria.”

Steve Paxton costuma dizer: “Contato Improvisação não é um jogo de glândulas”. Isso significa, em parte, que não é uma dança sexual. Costumo ouvir pessoas dizerem: “Amo esta forma de dança porque é uma forma não-sexual de tocar, ser carinhoso e brincar com as pessoas”.

Para mim, isso não é verdade. De certo modo, tenho consciência de mim mesmo como um ser sexual todo o tempo. Cada respiração minha é sexual. Sempre sinto um entusiasmo quando danço com mulheres e um orgulho de ser homem quando danço com homens. Não tenho como amputar essa parte de mim.

Certamente não quero que meus parceiros achem que estou usando a dança para “me satisfazer”. Às vezes danço imaginando que eu e meu parceiro estamos em um flerte que dura cem anos. Não estamos tentando chegar a lugar algum. Sem anular nenhuma parte de mim mesmo, posso dançar com o lado inofensivo de mim desperto. O Contato autêntico e espontâneo exige abdicar de ganhar ou lucrar algo com a troca. Desta forma, a pessoa pode dançar mantendo sua sexualidade viva.

Sempre que dançamos, testamos o que é consensual. Você aceitará o meu peso? Podemos dançar rápido? Podemos dançar muito, muito devagar? Às vezes, trazemos consensualmente uma energia sedutora ou erótica para a dança. Nós nos movemos concentricamente e verificamos o que é aceito por ambos. A troca ocorre em segurança, pois sabemos qual é o comportamento apropriado no ambiente de uma jam.

Quando estou no jardim vendo meus filhos brincando com os amigos, observo que, em seus jogos improvisados, estão constantemente determinando e testando limites. Em suas brincadeiras, são famosos paleontólogos desenterrando o maior dinossauro já descoberto. Ou são guerreiros correndo com suas espadas e escudos de papelão, rastejando sob cercas vivas para invadir fortes. Eles quebram e negociam as regras ao longo do caminho. Pode ser um sinal físico ou uma única palavra. Às vezes, a brincadeira é completamente interrompida enquanto discutem as regras do jogo. Eles estão sempre trabalhando para que o fluxo de atenção e poder seja justo e equilibrado. É parecido com o que fazemos em nosso grupo de dança.

Na Northern California Contact Jam tem havido, ao longo dos anos, uma constante negociação dos limites. O grupo discute quanta estrutura devemos ter, quanta catarse emocional e quanta música é desejável no espaço da jam. Ao longo das dez primeiras jams, aproximadamente, enquanto estabelecíamos nossos acordos verbais ou não verbais, houve muitas ocasiões em que caímos em brigas. Aprendemos ao longo do tempo que simplesmente escutar uns aos outros era tudo o que precisávamos para encontrar um equilíbrio entre opiniões contrárias. Havia pouca necessidade de decisões executivas. Viver o conflito e escutar cada pessoa permitia que as soluções se desenvolvessem naturalmente.

Notei que as jams em que havia mais conflitos eram também as que tinham no fim mais sincera gratidão, às vezes acompanhada de lágrimas. Quando estávamos totalmente envolvidos em testar e estabelecer limites, havia uma sensação de aprendizado, de criação de relacionamentos, de sermos parte de um grupo vivo, o que nos dava uma profunda sensação de gratidão.

Estar em um grupo de dançarinos e fazer constantemente esse trabalho de esclarecer os limites é como estar em um barril de polimento – destes que você enche de pedras e deixa girando por dias, de forma que as rochas fazem o polimento umas das outras. Ao aprender a sentir e expressar nossos limites, nós colidimos e rolamos uns sobre os outros, tanto física quanto metaforicamente. Pode machucar enquanto nossas bordas pontiagudas se suavizam, mas com o tempo ficamos polidos, lentamente revelando as pedras preciosas que trazemos. Através deste processo começamos a valorizar esta entidade viva chamada “grupo”, que nos ajuda a desenvolver uma maior capacidade para o sim – em nossas danças e em nossas vidas.